“A CÂMERA É NOSSA ARMA”

Video-Guerreiros Kayapó na Amazônia

Uma exposição digital e modelo 3D da vitrine de exibição a ser instalado no Museu Americano de Historia Natural (AMNH), Nova York, 2020

A Exposição 


A inovação é a chave para a sobrevivência. Na floresta Amazônica, o povo Kayapó usa câmeras de vídeo como armas para divulgar sua voz poderosa e seu legado ativista. Enquanto COVID-19 cria inúmeros problemas para museus e ainda mais para tribos indígenas, essa exposição online atualiza o diálogo do povo Kayapó contemporâneo com a exposição sobre povos indígenas da Amazônia instalada há mais de 30 anos no Museu Americano de História Natural.  

—Programa de Pós-Graduação em Antropologia de Museus, Universidade de Columbia/AMNH, 1o semestre de 2020

Quem são os Kayapó

O povo Kayapó, que se autodenomina Mẽbêngôkre, é um sociedade indígena dinâmica de mais de 12.000 pessoas. Sobreviventes de séculos de guerras e migrações forçadas, usam sua herança guerreira para proteger suas terras de novos invasores. Os Kayapó apropriam novas tecnologias e estilos, incorporando-os de maneiras que são distintamente Kayapó. Por exemplo, eles misturam ritmos brasileiros com letras em Kayapó para criar o “Kaya-Pop”.

Cacique Ngreikamôrô da aldeia Aukre, 2019
Imagem: Dado Galdieri

MIGRAÇÃOS DO KAYAPÓ

As terras ancestrais do povo Kayapó ficavam nas savanas do Brasil Central. A expansão europeia a partir do século XVIII deslocou os Kayapó mais de 1.600 quilômetros ao norte para a bacia Amazônica. Finalmente se estabeleceram ao longo do rio Xingu, onde permanecem hoje nas Terras Indígenas Kayapó oficialmente demarcadas.

Dados do mapaPETERS, Ann em FISHER, William. 2000. Rain Forest Exchanges, 27; WILD Foundation; SANTOS, Rodrigo. 2003. Mapa Etno-linguístico do Planalto Central e adjacências em Povos do Planalto Central e adjacências nos séculos XVII, XVIII e XIX,” 223.

ATIVISMO

Os Kayapó têm uma longa história de luta pelo seu território, soberania e cultura. Desde a década de 1980, lideram uma coalizão de povos da floresta em protestos internacionais contra a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, que passa por seu território. Os guerreiros Kayapó continuam a se defender contra aqueles que ameaçam seu modo de vida.

Durante os protestos históricos de 2014, os Kayapó e outros povos indígenas reivindicavam seus direitos em frente ao Congresso Nacional de Brasília. 

ImagemKrãkrax Kayapó 

Figura do guerreiro Kayapó, Sala dos Povos da América do Sul, AMNH 2020
Imagem:David Harvey

A intervenção de Tapiet e Terence Turner, 1990
Imagem: Biblioteca AMNH 600459

AMAZÔNIDAS VISITAM O MUSEU 

Em 1990, logo após a abertura da exposição atual no Salão dos Povos da América do Sul, os líderes e ativistas Kayapó Kubei e Tapiet visitaram o AMNH em Nova York com o antropólogo norte-americano Terence Turner. Foram provavelmente os primeiros indígenas amazônicos a conhecer esta exposição. Tapiet e Kubei presentearam a figura do guerreiro Kayapó na exposição com seus adornos corporais para lhe tornar mais autêntica.

Tapiet fez um discurso em Kayapó e colocou um cocar de penas verdes e um colar na figura, enquanto Kubei acrescentou brincos para as orelhas. Em entrevista recente (veja abaixo), Kubei conta como essas adições tornaram o guerreiro “uma verdadeira e bela pessoa Kayapó.”

ENTREVISTA COM KUBEI 

Kubei é um líder Kayapó e ativista pioneiro. Nas décadas de 1980 e 1990, ele se destacou, juntamente com os chefes Raoni e Paiakan, por organizar protestos bem-sucedidos contra uma proposta usina hidroelétrica no rio Xingu, que teria impactado as terras Kayapó. Nesta entrevista realizada em 2020 pelo cineasta Pat-I Kayapó, Kubei reflete sobre sua visita ao Salão dos Povos da América do Sul no AMNH em 1990, seu histórico de ativismo e o povo Kayapó hoje. Apenas tres meses depois dessa entrevista com Kubei, seu colega Paiakan morreu de COVID-19.

TRADIÇÕES DINÂMICAS 

Os Kayapó têm uma antiga tradição de capturar objetos e conhecimentos de seus inimigos históricos, tanto indígenas quanto euro-brasileiros. Este processo está resumido no conceito na língua Kayapó de nekrex, que se refere a armas, ornamentos, canções e outros bens culturais que são apropriados e transformados em seu próprio patrimônio cultural.

Câmera (Mekaron)

Japão, 2010
Plásticovidro, metal 
Propriedade da aldeia Turedjam 2013–2017 

Os Kayapó fazem filmes para proteger sua cultura e meio ambiente. Os cineastas Kayapó documentam as cerimônias nas suas aldeias e distribuem os filmes entre as comunidades. Alguns cineastas Kayapó usam câmeras para monitorar a extração ilegal de madeira ou registrar negociações cruciais com o governo brasileiro.

Cocar de Canudo (Pidjô Kangõ Ôkôdja)

Aldeia Aukre, 2019 
Canudos de plásticofio 
Coleção particular de G.H. Shepard Jr. 

Os guerreiros Kayapó fazem seus cocares característicos com penas, mas esta versão contemporânea é feita de canudos de plástico em cores parecidas às de aves. O desmatamento coloca em risco populações de papagaios, que são abatidos somente por caçadores designados. O cocar radial representa o universo circular dos Kayapó.

Colar Peitoral (Ngàp)
Braçadeiras (Mẽ Padjê )

Aldeia Aukre, 2013 
Miçangasalumínioaramefioalgodão nativo 
Coleções particulares de G.H. Shepard Jr. e J. Chernela, respectivamente

Os ornamentos corporais dos Kayapó comunicam harmonia entre diferentes partes do corpo e entre corpos individuais e a sociedade. O colar peitoral canaliza energia da cabeça para o tronco. As braçadeiras anunciam identidade social, filiação a uma aldeia ou, no caso deste desenho da bandeira canadense, parcerias internacionais.

Tinta de Jenipapo (Mroti)
Tigela de Cabaça (Ngôkõn)

Aldeia de Aukre, 2020 
Cabaça de árvorefruta de genipapo maceradacarvão, fibras de palmeira 
Coleção particular de G.H. Shepard Jr. 

Através de pintura e adornos corporais, os Kayapó marcam sua identidade diretamente na pele. As mães Kayapó passam horas pintando crianças com desenhos geométricos usando tinta preta de jenipapo em tigelas de cabaça como esta. Em comparação, a pintura corporal em adultos é menos elaborada.

CURTA-METRAGENS KAYAPÓ 


Festa de Mandioca (2015) 
CineastaBepunu
Adaptando a estética característica do cinema Kayapó, este filme curto representa o festival de mandioca, que dura 3 dias, em apenas 7 minutos, mantendo intacto os principais momentos rituais para um público não-Kayapó.

Trailer, Semana dos Povos Indígenas (2015)
Cineasta: Krãkrax
Este clipe mistura a estética Kayapó com o estilo de mídia contemporânea para promover a celebração da Semana dos Povos Indígenas na aldeia Turedjam.

Castanhã do Pará (2019)
Cineasta: Pat-I
Pat-I vai para as florestas da aldeia Aukre para demostrar a colheita da castanha do Pará.

Entrevista com Cacique Mroo (2013)
Cineasta: Glenn H. Shepard, Jr.  
O falecido cacique Mroo fala sobre como o povo Kayapó aproveita da tecnologia digital para proteger sua cultura, sua floresta e seus direitos.

Hey Jude (2013)
Cineasta: Glenn H. Shepard, Jr. 
Dois meninos Kayapó escutam a versão Kaya-Pop do clássico dos Beatles.

Trabalho na Roça (2019)
CineastasDjwy Kayapó e Irekako Kayapó 
Um dos primeiros grupos de cineastas mulheres entre os Kayapó oferece uma visão íntima do trabalho na roça.

CONHEÇA OS KAYAPÓ! 

Professores, pais e responsáveis: clique no PDF para download de atividades educacionais inspiradas na cultura Kayapó para crianças e estudantes.

TRABALHOS PUBLICADOS 

Fisher, William H. 1994. “ “Megadevelopment, Environmentalism, and Resistance: The Institutional Context of Kayapó Indigenous Politics in Central Brazil.” Human Organization 53, no. 3: 220-32.

Pace, Richard. H. and Glenn H. Shepard Jr. 2018. “Kiabieti Metuktire and Terence Turner: A Legacy of Kayapó Filmmaking.” In From Filmmaker Warriors to Flash Drive Shamans: Indigenous Media Production and Engagement in Latin America, edited by Richard Pace. Nashville, TN: Vanderbilt University Press, 49-58.

Shepard, Glenn H., Jr. 2013. “Kaya-Pop: The Brave New World of Indigenous Music in Brazil.Anthropology News, 54, no. 6 (June).

Turner, Terence. 1995. “Social Body and Embodied Subject: Bodiliness, Subjectivity, and Sociality among the Kayapo.” Cultural Anthropology 10, no. 2: 143–70.

Zanotti, Laura. 2014. “Hybrid Natures?: Community Conservation Partnerships in the Kayapó Lands.” Anthropological Quarterly 87, no. 3: 665–93.

SOBRE O PROGRAMA 


O Programa de Pós Graduação em Antropologia de Museus é oferecido em conjunto pelo Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia, Nova York, e pelo Museu Americano de História Natural (AMNH), unindo as forças dessas instituições destacadas e seus acervos e arquivos antropológicos.

Os alunos inscritos no programa para 2019-2020 fizeram a curadoria e desenho da exposição “A câmera é nossa arma”, trabalhando com o pesquisador visitante Dr. Glenn H. Shepard Jr. do Museu Paraense Emílio Goeldi em colaboração com cineastas e lideranças Kayapó. Os alunos aprenderam todo o processo de design de exposições, desde a conceituação inicial até a produção, treinados pela equipe do AMNH e por meio de visitas a outros acervos e empresas de design.

Para saber mais sobre o Programa de Pós Graduação em Antropologia do Museus, acesse o site.

CRÉDITOS 


CuradoriaTextosDesign 
Jacob Berlin
Elizabeth Daspit
Sarah Elston
Michaela Felter
Nicole Kim
Chloe Lula
Catherine Matteson
Ana-Sofia Meneses
Keenan Saiz
Francine Spang-Willis
Shuyue Wang
Michaela Wright

Professores 
Dra. Laurel Kendall, Chefe da Coordenação de Antropologia e Curadora de Acervos Etnográficos da Ásia, AMNH; professora colaboradoraUniversidade de Columbia. 

David Harvey, professor colaboradorUniversidade de Columbia University; anterior Vice Presidente Sênior de Exposições, AMNH. 

Dr. Glenn H. Shepard Jr. Pesquisador Titular, Museu Paraense Emílio Goeldi; pesquisador colaborador, AMNH. 

Editoria 
Laura Allen

Design Gráfico 
Danielle Forte

Design Web 
Brett Peterson, Associate Director of Media and Interactives, AMNH

Fotos e Vídeo 
Dado Galdieri
Bepunu Kayapó
Djwy Kayapó
Irekako Kayapó
Krãkrax Kayapó
Pat-I Kayapó
Glenn H. Shepard Jr.

Coordenação de Antropologia, AMNH 
Paul Beelitz, Director of Collections and Archives Emeritus
Anita Caltabiano, Administrative Director
Laila Williamson, Associate

Coordenação de Exposições, AMNH 
Lauri Halderman, Vice President of Exhibition
Melissa Posen, Senior Director of Exhibition and Exhibition Capital Projects
Sasha Nemecek, Director of Exhibition Interpretation
Joel Sweimler, Senior Developer

Biblioteca AMNH 
Tom Baione, Harold Boeschenstein Director of Library Services
Gregory Raml, Special Collections and Research Librarian

Universidade de Columbia 
Brian Boyd, Director of Museum Anthropology
Zoe Crossland, Associate Professor of Anthropology and Director, Center for Archaeology
Courtney Hooper, Director, Academic Administration and Finance, Department of Anthropology
David Scott, Ruth and William Lubic Professor and Chair, Department of Anthropology
Garen Tchopourian, Web Developer, Faculty of Arts and Sciences
Renee Tenenbaum, Business Manager, Department of Anthropology

Agradecimentos especiais 
Caciques Kaket, Krwyt e Ngreikamôrô, aldeia Aukre
Janet Chernela, University of Maryland
Laura Zanotti, Purdue University

Tradução 
Glenn H. Shepard, Jr.
Laura Zanotti

Pronuncia em idioma Mẽbêngôkre 
Bepunu Kayapó

Este projeto foi realizado com o apoio generoso do Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia University e financiamento do Museu Americano de História Natural.

  1200 Amsterdam Ave.
MC 5523
New York, NY 10027
  (212) 854-1390
X